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Transtornos alimentares na dança

A minha relação com o mundo da dança começou há quase 30 anos atrás, ou seja, dançar existe em mim há mais tempo do que a maioria das coisas na minha vida. A nutrição é o meu trabalho, é o meu propósito.

E os caminhos se cruzaram quando me especializei em transtornos alimentares. E um dos grupos de risco é, justamente, esse mundo que tanto amo: bailarinxs, pessoas que dançam e profissionais de educação física.

Foto: internet

Isso pode ser explicado, em parte, porque na dança o corpo e o desempenho físico são vistos como pontos essenciais e invariavelmente idealizam a perfeição.

Não é incomum eu receber pacientes, adultos, que relatam que a primeira lembrança que tem de começarem a se preocupar com o corpo foi na aula de dança quando crianças, em que a professora, ou professor, disse que precisava emagrecer. Ou seja, estava fora do padrão, inadequado.

É importante pontuar aqui que grande parte das questões alimentares e corporais se inicia com esse sentimento de inadequação, ou seja, um pensamento de que estou fora do que eu considero um padrão aceitável. E esse padrão é criado pelo que a sociedade impõe. E a dança é um reflexo da sociedade. Bem, então é só juntar as peças do quebra cabeça...

É legal entender como esses padrões são criados e impostos, e feitos para que a gente realmente acredite que a gente não se encaixa. Portanto, para pertencer, a gente acaba fazendo dieta, cirurgia plástica, e outros comportamentos que nos colocam numa busca infinita que acaba não levando pra lugar nenhum uma vez que estes padrões muitas vezes são irreais e inatingíveis. Photoshop, filtros do Instagram e stories de 15 segundos dão a ilusão de que o que a gente está vendo é aquilo, e só aquilo. Mas sabemos que tem toda uma vida por trás disso, cheia de defeitos, como qualquer outra.

Quando falamos do “mundo da dança” estamos lidando com anos e anos de padrões estabelecidos. Ou seja, para muitos, para dançar tem que ser magro e quem é gordo não dança. Apesar de tudo, a boa notícia é que estamos vivendo uma era de quebra de paradigmas e crenças. Muito tem sido conversado e, muitas vezes, revisto.

Mas o problema ainda está aí. Quando falo que esse grupo é de risco para transtornos alimentares, quero dizer que essas pessoas, por conta do corpo estar sempre em muita evidência, podem desenvolver:

  • Inadequações persistentes no consumo, no padrão e/ou no comportamento alimentares, ocasionando significativos prejuízos nutricionais, físicos e/ou psicossociais, caracterizando os transtornos alimentares.

Em outras palavras:

  • Uma relação extremamente conturbada com a comida e com o corpo, levando a comportamentos disfuncionais como:

  • restrições alimentares intensas ou episódios de compulsão alimentar

  • comportamentos compensatórios inadequados (ex. provocar o vômito, uso abusivo de laxantes e diuréticos, prática extenuante de atividade física)

Dentro da ideia de repensar como podemos tornar esse um mundo melhor e atuar diretamente na prevenção de transtornos alimentares na dança, acredito que os professores de dança tem um papel essencial em não incentivar a hipervalorização do corpo nem prática de dietas ou qualquer outro tipo de comportamento alimentar sem orientação de um profissional e/ou embasamento científico. Assim como as escolas de dança se tornarem locais de diálogo, disseminando informações, ser uma rede de apoio para seus alunos, além de promoverem treinamentos especiais para os professores sobre essa temática.

A dança é uma ótima ferramenta para as pessoas melhorarem as relações com seus corpos, com a sua autoestima, com o autocuidado. Assim como a ioga e práticas de meditação, são atividades corporais que incentivam essa conexão com o seu corpo do jeito que ele é.

É possível ter uma boa relação com a comida e com o corpo. Se você acha que essa relação está conturbada, se há sofrimento com o que você come ou com o seu corpo, busque ajuda. Mas ajuda especializada, isso é muito importante.

Você não está sozinha ou sozinho. Você não precisa passar por isso sozinha ou sozinho.


Para saber mais sobre esse assunto, vou deixar aqui o link para o podcast Pé na Orelha, o qual participei em 2 episódios falando sobre esse tema.


Espero que gostem!

Beijos da nutri, Raquel

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